Melchior e o menino Rei; a origem de Noel -- Conto de Natal



Mais um final de ano se aproxima, o dia de natal está às portas e eu sigo em minha empreitada solitária, minha missão, minha saga ou até, me atrevo a dizer, minha epopeia. Escrevo a quem possa interessar, pois quero desabafar, é bem verdade que essa é a época do ano em que estou mais alegre, porém, depois de tantos e tantos séculos, só o que me resta é a esperança quase tão imortal quanto eu, de ser finalmente retirado dessa terra e elevado às regiões celestiais.
Mas não vou me alongar nesse prólogo, haverá sem dúvidas, tempo para tratar destes temas com você meu caro leitor incauto. Sim haverá.
Por agora vou retroceder, alguns anos; não! Séculos, na verdade. Voltarei ao princípio de tudo para mim e para todos vocês; logo vou me fazer entender.
O dia de natal e eu nascemos, creio, no mesmo momento. Farei um relato abrangente, mas não vou me aprofundar, porque me faltariam páginas para contar a história toda.
Há muitíssimo tempo atrás, eu estudava os astros, os observava e anotava tudo que achava pertinente, não fazia isso sozinho, é claro, mas acompanhado com tantos outros espalhados pelas terras do oriente, porém alguns de nós tínhamos um propósito escondido por trás de nossos estudos. Havíamos ouvido de uma tribo nômade que vagava pelos desertos de onde hoje é o lugar conhecido como Palestina, que, algo grandioso haveria de acontecer; imediatamente concluímos que se era algo realmente grandioso como aquele povo dizia, algo que seria capaz de mudar o curso da história da humanidade, então os céus diriam alguma coisa a esse respeito.
Como fui tolo, por mais que eu fantasiasse em minha mente nunca poderia imaginar a grandeza do fato que mudou a vida de meus companheiros e estendeu a minha, ao que parece, por tempo indeterminado. Voltemos à história.
Recebi alguns manuscritos nos quais me debrucei à estudar, haviam neles muitas histórias de grandes reis e juízes que por muito tempo julgaram uma pequena, mas poderosa nação; havia também relatos consideráveis de homens tidos por seu povo como profetas. Depois de meses examinando tais manuscritos e ouvindo as histórias contadas a respeito do povo que desafiou a ira dos faraós, sobreviveu ao deserto por quarenta anos; a história das doze tribos, do patriarca que encontrou o sacerdote Melquisedeque, o homem, um rei, um sacerdote, sem genealogia, e a ele ofertou como se o estivesse fazendo para o próprio Deus, do rei cuja sabedoria tornou-se sem precedentes na história dos homens e seu pai, homem de valor em muitíssimas batalhas que quando jovem enfrentou e venceu um famoso guerreiro gigante num confronto aberto; e tantos e tantos fatos tão poderosamente interessantes que nem eu nem meus companheiros de estudo dos astros, e, também, naquela altura, das escrituras poderíamos ousar descartar.
O fato é que, certa vez lendo as escrituras ficamos convencidos de que realmente algo grande aconteceria, só não podia prever que seria tão rápido.
Esta parte da minha carta é a mais bela, pois nela vou contar o encontro que tive com o homem que mudou o mundo, embora Ele ainda muito jovem, recém nascido ainda não o soubesse.
Como eu disse, já estávamos sabendo que um fato grande mudaria o mundo tal como conhecíamos até então; o nascimento de um menino cujo nome seria Salvador, a quem os semitas chamariam, O Messias. Nós então passamos a procurar, incansáveis, um sinal nos céus que comprovasse nossas expectativas, alguma evidência desse nascimento predito e profetizado durante séculos. Certa noite para nosso espanto vimos o sinal.
Uma estrela bela, grande e brilhante surgiu no alto do céu e movia-se lentamente; ela era tão distinta das demais e tão fora dos padrões, pois havíamos mapeado os céus o máximo que conseguimos, que só poderia ser aquele o sinal. Sem duvidar nem um momento eu e meus companheiros deixamos nossa terra e vagamos por dias e dias seguindo a estrela, quando era dia e a luz do sol estava iluminando o céu, ainda assim podíamos vê-la, chegamos até a chamá-la de estrela da manhã, tamanho era seu brilho; durante a noite ela continuava lá, seguindo ou nos guiando para um lugar que marcaria nossas vidas.
Para que vocês leitores tenham uma tênue noção do que era aquela estrela, eu poderia compará-la com um cometa, embora nesse tempo que tenho de vida nunca tenha visto nada semelhante.
Carregávamos apenas poucas coisas conosco, somente o necessário para a viagem e, é claro, algumas dádivas que ofereceríamos para aquele que seria o Salvador, assim como o patriarca das escrituras ofertou ao sacerdote sem genealogia.
A estrela nos guiou por dias até que finalmente chegamos na cidade cujo domínio pertencia a Herodes; Jerusalém, quem não conhece esse nome? Lá, conversamos com o Rei e sua curiosidade acerca dos fatos era grande, nos reunimos secretamente com Herodes, longe da presença de seus conselheiros e magos, e, ele nos perguntou muito sobre a estrela que nos havia guiado até ali. Por fim nos disse que seguíssemos até Belém, na Judéia onde deveríamos perguntar sobre o menino; se já tinha realmente nascido ou não e onde exatamente ele estava; quem eram seus pais e uma série de outras informações importantes. Ainda disse que depois deveríamos voltar e contar tudo a ele para que ele próprio pudesse ir levando sua comitiva real para ver a criança das profecias.
Então fomos.
Mas no caminho começamos a ouvir muitos comentários dos peregrinos e andarilhos que iam e vinham. As pessoas diziam de uns pastores de ovelha que espalhavam a notícia miraculosa do nascimento da criança, segundo os relatos, tais pastores durante a noite foram surpreendidos por um homem que lhes disse: “achareis o menino envolto em panos e deitado numa manjedoura”, mas não foi só isso, tais pastores também viram uma legião inteira do exército celestial, na terra. Eram anjos.
A multidão dos guerreiros celestes diziam a seguinte frase:
_ Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens!
Esta parte que estou relatando agora, eu só fui apurar dias depois do meu encontro com o menino, entretanto, julguei melhor contá-la antes para facilitar um pouco mais a compreensão de quem quer que leia meu relato. Sigamos então com a narrativa.
Os pastores atônitos, maravilhados e assombrados com a notícia que receberam, foram para a cidade ver o menino e no caminho espalhavam as novidades; muitos também se entusiasmavam e a notícia correu, chegando até mim e meus nobres companheiros de viagem e estudo antes mesmo que nós chegássemos à cidade.
Quando finalmente chegamos, foi fácil descobrir onde moravam os pais do menino, os rumores eram muitos e logo, sem perder mais tempo fomos até o lugar. Entrando na casa vimos o menino e sua mãe.
Aqui cabe fazer uma pausa, porque não há palavras para descrever o que senti quando finalmente vi a criança, e, é aqui também que abandono à perspectiva de meus companheiros de viagem; só posso falar por mim. Eu estava diante do filho do Deus único, a criança que quando se tornasse um homem, sofreria incontáveis danos e seria levado à cruz para salvar a humanidade que se havia perdido; naquele momento entendi o significado do nome do menino.
É certo que essa é uma outra história que todos conhecem e não tenho pretensão alguma de tornar a contá-la, basta para tanto os relatos contidos nos quatro evangelhos. Quanto a mim, limitava-me a pensar no que o futuro reservava para Ele e não pude fazer outra coisa que não fosse me ajoelhar na frente da criança e relatar o quanto estava feliz de ter finalmente encontrado O messias; passei algum tempo ali e cumpri o que tinha proposto no meu coração; ofertei juntamente com os outros que comigo estavam ouro, incenso e mirra. Eu o presenteei com mirra. E mais; naquele exato momento resolvi que a cada ano quando se completasse aniversário do nascimento do menino eu faria exatamente aquilo, ou seja, presentearia uma criança. Faria isso enquanto eu vivesse, só não podia imaginar que viveria tantos séculos assim.
Ficamos em Belém durante os dias que se seguiram e eu tive um sonho revelador logo na primeira noite; no sonho um homem dizia-me que não retornasse para Jerusalém, nem procurasse jamais ao rei Herodes. Por fim acabei sabendo que não só eu, mas todos nós que presenteamos o menino havíamos sido avisados em sonho, de que Herodes não poderia saber do paradeiro da criança; assim despedimo-nos da criança e de seus pais e retornamos para nossa terra, com ânimo e forças renovadas.
Os dias viraram meses, anos, décadas e lá se foi o primeiro século; as pessoas que compartilhavam a vida e todas as suas doçuras comigo foram pouco a pouco se afastando assim que perceberam que eu não mais envelhecia; o tempo havia retirado sua mão de sobre a minha cabeça, muitos indagavam sobre a causa do meu não envelhecimento, mas nunca ousei responder, mesmo tendo guardado no meu coração que a criança tinha algo a ver com isso. A verdade é que nunca mais encontrei aquele menino, nem mesmo depois de ele ter se tornado um homem e cumprido a missão a qual veio fazer nessa terra; por vezes ouvi rumores dos grandiosos feitos operados por suas mãos e também ouvi de sua morte e ressurreição, a qual devo acrescentar que creio piamente.
Com o passar do tempo, para os outros, todos os rostos conhecidos que me cercavam foram um a um deixando de existir; eu estava só num mundo que tinha mudado completamente. Por isso resolvi deixar minha terra e vagar novamente até encontrar um lugar que fosse longe o suficiente de minha pátria mãe.
Lembro-me do que pensei quando vi o menino; “meus olhos viram o Rei dos reis”. E esse pensamento me acompanha até hoje, mais de dois mil anos depois; naquela época eu possuía setenta anos e até os dias atuais mantenho minha aparência, ainda uso meus cabelos e barba brancos, como na época em que morei em Ur, terra dos caldeus.
Cabe aqui um salto no tempo, visto que não quero enfadar nenhum de vocês leitores de minha carta e ainda falta, apenas para finalizar essa parte, eu contar um pequeno detalhe que omiti até esse ponto da narrativa. Meu nome.
O nome pelo qual fui conhecido no passado, na época dos fatos que narrei até aqui era Melchior, chamavam-me de mago, mas não vamos enveredar por tais caminhos agora. Já o nome pelo qual sou conhecido hoje é na verdade uma distorção do nome que adotei séculos depois.
Não vou me prender tão fielmente às datas e locais, porque essa não é a minha intenção primordial, na verdade, o que quero é apenas relatar fatos que aconteceram num longo espaço de tempo. Tampouco vou passar pelas emoções de um homem imortal, e todos os pensamentos que povoaram minha mente, as dúvidas e tudo nesse sentido que pressionaram meu coração durante séculos ou o desajuste social pelo qual passei nas localidades onde me estabeleci até finalmente chegar à próxima etapa de vida e me acostumar com minha nova condição.
Eu estava vivendo num lugar frio, meu segredo hibernava no âmago de minha alma; eu sempre passava décadas numa localidade e depois migrava para outra, assim não seria notado quando todos ao meu redor começassem a sofrer os efeitos do tempo, nem seria interpelado pela minha imunidade a “Cronos”.
Pois bem; eu estava vivendo numa vila de pessoas simples e pobres, esse lugar ficava numa região gélida e longínqua de minha terra natal; a vila era adornada por um manto constante e branco de neve que parecia não parar de cair durante todo o ano, porém na estação do inverno a intensidade redobrava. Os moradores da vila eram gente muito simples e trabalhavam cada qual em seu ofício fazendo com que o lugar funcionasse como uma comunidade perfeitamente ajustada.
Antes que vocês se perguntem, ou me perguntem, se eu estava cumprindo o que havia  proposto no coração, presentear uma criança a cada aniversário do dia em que vi o menino em Jerusalém; digo que sempre que possível eu estava fazendo aquilo. Sempre por onde quer que eu estivesse, deixava um presente na porta da casa que houvesse uma criança ou crianças.
Com o passar de muitas outras vintenas de anos e já sabendo da divisão feita na história da humanidade, que naquele momento e para sempre seria tratada em a.C e d.C, eu comemorava o aniversário do nascimento Dele junto com o restante das pessoas dos lugares onde eu estivesse vivendo, a data tornou-se famosa e conhecida até os dias de hoje como “Natal”, ou seja, O dia do nascimento.
Passei a fazer isso uma noite por ano; juntava muitas coisas que julgava boas para presentear às crianças da vila e saía, sempre na noite do natal, para repetir o gesto que fiz ao Salvador. Mas eu sempre procurei tomar o cuidado de não ser visto enquanto fazia a entrega dos presentes; creio que fui muito mal sucedido nisso, pois o tempo passou e quando dei por mim, já havia uma espécie de lenda montada a respeito da minha pessoa.
A verdade era que a lenda já estava muito maior do que o homem, o mito superou a realidade e como se não bastasse, ainda aconteceram inúmeros sincretismos que acabaram culminando no personagem conhecido hoje como Noel.
É bem verdade que mudei meu nome, não uso mais o nome Melchior, concedido por meu pai quando ainda eu vivia em Ur dos caldeus. Depois de várias viagens pelo mundo acabei descobrindo que por toda parte as pessoas estavam de alguma forma envolvidos por esse espírito de presentear as crianças, espírito esse que havia nascido quando os boatos sobre minha presença passaram pelos limites da vila onde eu morava; Vocês sabem como é, quem conta um conto aumenta um ponto. Logo muitas variações do personagem que nasceu inspirado em mim estava por todas as cidades que visitei; Nikolaus, Julemanden, Santa Claus, Kerstmam, Ded Moroz, Papá Noel, Jultonte, Père Noel, Babbo Natale são apenas alguns dos nomes que recebi ao redor dessa terra.
Creio que isso já é mais do que o suficiente para que vocês meus companheiros de viagem no tempo e nas minhas memórias saibam quem sou, fui e serei, sabe Deus por quanto tempo ainda; é certo dizer e afirmo, que, quis poupá-los de todas as tristes lembranças que possuo, e são muitas, mas na verdade julguei que nenhuma delas viria a enriquecer a história. Termino minha breve carta dizendo duas coisas. Primeiro:
Nessa data natalina que representa tanto para todos ao redor do mundo, peso que todos reflitam um pouco nos rumos de suas vidas e, se proponham a melhorá-la um pouco mais, não com as coisas normais e desejáveis, tão comuns a nossas vaidades, mas sim com um pouco mais de afeto e carinho para com o próximo. Ouvistes certamente o que já foi dito, “amaras o teu próximo como a ti mesmo”_ disse o mestre.
A segunda coisa é:
Ainda continuo em minha missão, sempre escolho uma criança para presentear e continuarei fazendo isso enquanto vida eu tiver, por tantos quantos séculos me restarem, mesmo com toda mídia e todos os holofotes que se acenderam em torno do tal personagem Noel. De fato, eu sou esse Noel; não com todas aquelas coisas inventadas para entreter as crianças, renas, trenós e outras coisas que confesso funcionaram para criar um mito. Mas ainda sou o mesmo homem de sempre; o tal Noel.

Melchior.
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